Em 2018, entre araras improvisadas de uma feira de artesanato em Fortaleza, o designer desempregado Sávio Ewan vendia roupas para pagar dívidas e, com o troco, comprava cola, solados, palha de carnaúba e madeira. O ritual semanal durou nove meses e rendeu oito pares de sapatos – só um deles foi vendido, mas isso bastou para convencer Sávio a fundar a Terra da Luz, projeto que traduz saberes do Ceará em calçados aptos a cruzar praia, asfalto e passarelas.

A semente empreendedora brotou quando ele criou o Enroupe, um closet compartilhado, com uma sócia. “Recebíamos peças manchadas, rasgadas, impossíveis de circular. Entre descartar e reparar, escolhemos transformar. O upcycling virou bússola, e o sapato, suporte ideal para dar nova vida a esses materiais”, lembra.

Quando o capital secou, a sociedade terminou, mas ficaram estoque e experiência. Foi nos restos da partilha que Sávio viu um novo começo.

Como tinha material, mas não técnica, buscou ajuda de profissionais locais. “Quis trabalhar com palha, era novidade em calçados, muitos sapateiros queriam desistir, mas insisti.” A Terra da Luz nasceu calcada em fibras naturais, madeira e trabalho manual.

Em dezembro de 2018, numa feira colaborativa, vendeu os 35 pares da segunda leva. “Ali soube que estava no caminho certo.”

O Nordeste, rico em matérias-primas orgânicas e saberes ancestrais, virou fonte de inspiração. Crochê, trançado de palha, tingimento botânico e bordados compõem um design que rompe o lugar-comum do artesanato. Sávio foi logo chamado para colaborar com Catarina Mina no Brasil Eco Fashion Week, calçar Sherida na Casa de Criadores e criar para Walério Araújo no SPFW. Em 2021, tornou-se a primeira marca de calçados apoiada pelo Instituto C&A, refinando um DNA “bold” e maximalista inspirado em Fortaleza.

A marca foi sucesso estrondoso em sua primeira Feira na Rosenbaum em SP, em março. O foco, agora, é fortalecer a rede local, lapidar o design e mostrar que ritmo lento é decisão estratégica, não falha de gestão.

Ao calçar a Terra da Luz, o convite é de auto-pertencimento: cada fibra de palha, as cores do mangue, carregam a história de um Nordeste audaz que reinventa o artesanal no século 21.