Uma marca que faz uma ode à riqueza artística do sertão, com inspiração no cangaço e no espírito nômade e lúdico do circo. Essa é a melhor maneira de definir a Ser’tão Encantado, criada há quatro anos pela alagoana Julia Maria Nogueira. Seu fascínio pelo cangaço vem da infância, quando recebeu do avô um livrinho de cordel que contava a história de Lampião. O encantamento pelo sertão se concretizou há nove anos, depois de uma viagem à Ilha do Ferro, no sertão alagoano, à beira do Rio São Francisco, região conhecida por ter a maior concentração no país de artistas por metro quadrado.

“Na época em que estive lá pela primeira vez, a Ilha do Ferro não era famosa como hoje nem seus artistas tão reconhecidos. Voltei trazendo muitas peças de couro e decidida a mostrar de alguma forma a riqueza do sertão, desfazer essa imagem recorrente que associa a região apenas a fome e seca, tristeza e morte”, conta. Formada em design gráfico, Julia estava de malas prontas para trocar Maceió por São Paulo, onde faria uma pós na Belas Artes. Durante os cinco anos em que viveu por lá, descobriu e apaixonou-se também pela arte circense – espírito livre, questionadora, Julia morou em uma ocupação na temporada paulistana e fazia apresentações circenses pelas ruas da cidade.

As peças de couro que havia levado na bagagem começaram a ser customizadas por ela, com pinturas coloridas, vibrantes, que mesclavam a temática sertaneja com circo. Logo havia uma fila de gente pedindo que fizesse para eles também. Na volta a Maceió, terminou atendendo aos desejos dos amigos e lançou a Ser’tão Encantado, deixando a carreira de designer para trás e abraçando a vida de artista múltipla.

O carro-chefe da Ser’tão são justamente as Xô Boi, a sandália de couro que era usada pelos cangaceiros, devidamente customizada por Julia. Elas são confeccionadas em Arapiraca, por um único artesão, e depois enviadas ao ateliê em Maceió, onde Julia faz as pinturas com uma auxiliar. Originalmente usadas pelo bando de Lampião (porque seu solado se confundia às pegadas de animais, despistando a polícia e inimigos em geral), logo foram adotadas por todo vaqueiro, e hoje fazem parte do traje oficial do sertanejo, com versões femininas e infantis.

“Lampião foi um grande estilista, as indumentárias do cangaço são riquíssimas e foram todas desenhadas por ele”, conta Julia, que de tão apaixonada pelo sertão, decidiu abandonar seu nome de batismo e hoje prefere ser chamada apenas de Ser’tão. “Queria me desvincular do arquétipo social de nome e sobrenome”, explica, mostrando mais uma vez o espírito contestador que a levou a viver em ocupações na temporada em São Paulo.

Na mesma época em que profissionalizou a customização das Xô Boi, Ser’tão passou também a pintar murais, e hoje seu traço alegre e místico se faz presente em fachadas comerciais, interiores de casas e até na famosa e instagramadíssima Igreja do Patacho, no litoral alagoano, um de seus trabalhos mais recentes. Assistir Ser’tão trabalhando é como ver uma perfomer em ação – sorte a nossa que ela costuma documentar tudo e mostrar na conta da marca no Instagram – seguir o perfil @s.e.r.tao é uma injeção de ânimo e um mergulho neste universo místico, histórico e lúdico.

Além de customizar as Xô Boi, Ser’tão também enfeita mochilas, bolsas, botas e pochetes com suas pinturas quase lisérgicas. Há quatro meses, expandiu ainda mais o repertório da marca e passou também a pintar as incríveis cadeiras feitas de galho por Jasson, artesão mais famoso de Belo Monte, no sertão do Baixo São Francisco. Espírito livre como Julia, Jasson costuma desaparecer mata adentro em busca dos galhos retorcidos e de aspecto fantástico que dão forma aos pés, braços e encostos de suas cadeiras. Natural que o encontro dos dois resultasse numa parceria criativa. Mas quem deseja uma peça precisa ser paciente: o processo leva pelo menos 40 dias, já que depois de confeccionada a cadeira é desmontada para ser enviada a Maceió para a customização, sendo remontada em seguida.

Ser’tão não gosta de ser apressada e tampouco de trabalhar com estoques. Por isso, explica logo em seu e-commerce que as Xô Boi, com preço médio de R$ 300, levam entre 15 e 25 dias para ficarem prontas. Artista multiplataforma, performática, experimentalista, Julia segue firme em seu propósito de levar a cultura do sertão para o mundo. Um sertão artístico, culturalmente rico, vibrante e muito, muito astral.

Sua loja virtual funciona no www.sertaoencantado.com.br