Imaginar o sertão como sinônimo de seca, fome e terra rachada ainda é praxe no país todo. Mas o baiano Matheus Guimarães – também conhecido como Chão de Palha – faz parte de um grupo crescente de nordestinos que vêm tentando reescrever essa história.

Em sua visão, o sertão é cheio de água, e é isso que mostra em suas peças de madeira e cerâmica, usadas para refletir, de forma lúdica, sobre os impactos da colonização no sertão, que devastou vegetação, rios e também as culturas indígenas e africanas de seus povos originários.

Nascido em Feira de Santana, Matheus é formado em Engenharia Civil. Sempre desenhou, mas foi durante as matérias de desenho técnico que começou a tratar esse dom mais a sério. Sem artistas na família, teve como mentor um tio que é marceneiro. Durante a pandemia, começou a fazer móveis, mas logo entendeu que sua praia era mais artística.

Mais que sua cidade natal, Feira é fonte de inspiração.”Somos uma ‘cidade-encruzilhada’ e você acha de tudo aqui, inclusive todos os tipos de pessoas.” Como sempre morou perto das feiras de artesanato, reparou que havia muito descarte de materiais e passou a utilizar esses resíduos para experimentar. Caixotes de madeira, por exemplo, viraram pequenas esculturas em formato de peixes e de pessoas.

Os peixes são personagens fixos no universo de Matheus. “Queria representar o sertão sem usar o gado e o cacto seco.” Para desafiar a regra, ele apresenta um sertão que é rico em água, que tem sereias e até orixás e búzios. Outra marca registrada é que todas as figuras retratadas por ele têm os olhos em formato de peixe.

Além das esculturas, Matheus pinta em outros materiais que encontra pelas feiras, como as cabaças e as cerâmicas e está começando a testar a ilustração digital. Como cria a partir do que encontra, não reproduz as peças em série: ele faz e só depois comercializa – mas aceita encomendas.

Multifacetado, o baiano de 28 anos ainda encontra tempo para exercer o lado cordelista. Desde o ano retrasado escreve e ilustra cordéis, em uma ordem não fixa: “às vezes penso no desenho e depois vem a história – e às vezes o contrário”. Agora só nos resta torcer pela próxima exposição onde poderemos conferir todas as versões de Matheus.