Streetwear nordestino
Streetwear nordestino
Sandro Ferreira nasceu na zona rural da pequena Santa Luiza do Paruá, cidade hoje com 24 mil habitantes que fica a 300 km de São Luís. Os pais o deixaram quando tinha 4 anos aos cuidados da avó materna para tentar a vida em São Paulo, já que por lá as únicas alternativas de emprego eram trabalhar com gado ou na prefeitura.
Desde menino gostava de desenhar e se encantava com os figurinos dos bailarinos dos grupos de reggae que, volta e meia, vinham se apresentar no único clube da cidade, que ficava em frente a sua casa. “Onde eu morava só tinha roça. Quando via montarem as radiolas, corria para frente de casa para ver os figurinos, super diferentes.”
Sem acesso à internet, juntava dinheiro para comprar fichas nas lan houses e pesquisar imagens de desfiles. Aos 15, mudou-se para São Paulo para morar com o pai e terminar o ensino médio. “Já sabia que queria estudar moda, mas meu pai não aceitava. Ele era zelador em um condomínio no Morumbi e brigávamos muito por conta da minha sexualidade.”
O curso de técnico em estilismo no Senac era pago, e Sandro então foi trabalhar em restaurante, como ajudante de cozinha, para seguir a carreira que queria. “Terminei indo morar com minha mãe, que fazia de tudo um pouco, mas na minha formatura não tinha ninguém pra ir comigo.”
Em 2013, recém-formado, colocou a pasta de croquis debaixo do braço e percorreu todas as lojas da Rua São Caetano, no Brás, conhecida como a “rua das noivas”. Arranjou emprego como assistente de estilo, mas atendia à clientela, tirava medidas, fazia de tudo.
Depois trabalhou como vendedor em shopping e foi sócio num ateliê de camisaria para o público LGBTQIA+, com uma colega do Senac. Em 2016, achando que a moda não era para ele, decidiu se matricular num curso de dança contemporânea que funcionava no Theatro Municipal. “Fazia performances e bicos como stylist pra me sustentar.”
Sentindo que havia se afastado demais de suas raízes, foi passar uns tempos com a avó, que havia de mudado para Roraima. Na volta a SP, arranjou emprego com Soda Diopo, estilista senegalesa conhecida como Mama, figura lendária por acolher imigrantes, que tem há duas décadas uma loja na República. “Fiquei um ano e meio com ela, que me mostrou que eu tinha de me conectar com minha ancestralidade indígena e africana. Fomos juntos fazer um trabalho na Bahia e senti um choque. Ali senti que precisava criar uma marca que contasse minha história.”
Em 2018 lançou a Berimbau – o nome vem das memórias da capoeira que jogava quando criança. “Passei por mentorias e acelerações no Sebrae para organizar o negócio e, em 2021, veio o convite para participar da Casa dos Criadores.” Quatro desfiles depois, é das marcas âncoras do evento e tem suas peças vendidas na Gengibrão, polo de moda e arte independente no Centro de São Paulo.
“Rompi um paradigma porque na minha cidade ou você trabalha na Prefeitura ou em fazendas de gado. Hoje tenho minha marca, sou educador e referência paras meus amigos no Maranhão.”