Enquanto boa parte das crianças dos anos 1990 crescia cercada por referências tradicionais – brincando com bonecas brancas e consumindo narrativas pouco diversas na televisão –, na casa de Luma Paula Nascimento a construção de identidade seguia outro caminho.

Fruto de uma relação afrocentrada entre uma educadora e um agente cultural, criador de um dos maiores blocos afros de Salvador, Os Negoes, Luma cresceu em meio a discussões sobre ancestralidade, cultura e pertencimento.

Fascinada pelo universo da pesquisa, ingressou na faculdade de pedagogia, mas percebeu que havia outros campos de investigação que a atraíam mais. Ainda sem saber qual seria seu “objeto de pesquisa”, encontrou uma informação que lhe o rumo que buscava: a descoberta de que a miçanga havia sido utilizada como moeda de troca e carregava uma complexa trajetória histórica, em diferentes povos e territórios.

Como não queria ficar apenas na pesquisa, em 2019 Luma criou a Lemoriô, marca de acessórios que logo se tornou também o espaço onde Luma comercializava esculturas e adornos com linguagem e narrativa próprias.

Em 2023, foi convidada pela artista Luana Vitra como pesquisadora para seus estudos na África do Sul, onde passou a investigar os processos históricos e simbólicos relacionados à produção das miçangas, especialmente por povos africanos zulus ou xhosas. Por lá, descobriu que as miçangas também eram utilizadas como elemento de comunicação, proteção e expressão cultural. Também estudou as propriedades físicas do vidro, como a capacidade de isolamento térmico e elétrico.

A miçanga carrega uma leitura muito preconceituosa. Durante anos me perguntavam se eu vendia miçangas na praia.

Luma, que antes tinha desenvolvido esculturas para Preta Gil, ao voltar para o Brasil e ampliou sua pesquisa para as miçangas de barro provenientes de territórios quilombolas, o que lhe abriu as portas para o circuito das artes visuais, com participações em feiras internacionais como e exposições no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) e no Museu de Arte Contemporânea da Bahia.

Com viagem programada para o Senegal para uma nova residência artística, Luma vai inaugurar até o fim do ano três exposições no Brasil, uma no Rio e duas em Salvador. E pensar que muita gente quando sabia que Luma trabalhava com miçangas perguntava se a ideia era vender na praia.