Artesanal fashion
Artesanal fashion
“Entendi que minha moda não seria mais moda sem artesanato”: é essa a resposta que Joana de Paula, fundadora da Jô de Paula Atelie, tem na ponta da língua para justificar como chegou até aqui.
Nascida no Rio e formada em moda pelo Senai Cetiqt em 1996, com uma extensão no Fashion Institute of Technology em Nova York, Jô trabalhou em grandes marcas como Maria Bonita, Mara Mac, Cantão e Animale. Mudou-se para o Ceará há 21 anos, foi sócia-fundadora da Catarina Mina, assinou figurinos para teatro e cinema, além de desenvolver cenografia para eventos, sempre incorporando o elemento artesanal e feito à mão.
Antes de chegar a Fortaleza, passou uma temporada em Florianópolis, onde trabalhou numa confecção de jeans, até que se cansou do ritmo da indústria. Chegando no Ceará, decidiu repensar a própria carreira e entendeu que queria mesmo algo autoral e artesanal.
Conheceu Celina Hissa logo que chegou à capital cearense e foi uma das sócias fundadoras da Catarina Mina, em 2014. Em 2017, quis alçar voo solo e lançou a marca que carrega seu nome, ao mesmo tempo em que tocava a Todos os Poemas, ao lado de Angélica Freitas e Daniella Milério.
Como a Todos os Poemas fechou na pandemia, Joana decidiu focar em seu projeto solo. “Nunca questionei a ideia de trabalhar com o artesanato, mas sabia que queria que ele tivesse uma cara ‘de luxo’, até pelo valor do trabalho em si. Faltava apenas design e referências” – e isso ela tinha de sobra!
Desde a retomada, Jô já desenvolveu três coleções, todas no ateliê de casa, por isso tudo possui tiragem reduzida. Os bordados, carro-chefe da marca, são feitos por dois grupos de bordadeiras que a designer trabalha há anos. Recentemente incorporou também dois grupos de rendeiras, um de filé e outro de labirinto. As roupas são feitas apenas em tecidos naturais e nobres como linho, algodão orgânico e seda.
A coleção de estreia foi “Caititu”, inspirada no ritual de ralar mandioca para a farinhada. Joana convidou a artista e tatuadora Avoante para criar desenhos inspirados no livro “O não me deixes: suas histórias e sua cozinha”, de Rachel de Queiroz. A narrativa é um mergulho na vida sertaneja onde a cozinha é o coração da casa.
Já “Que árvore é essa, Dona Rubinete?”, a segunda, foi inspirada nos desenhos da artesã Rubinete, famosa pelas peças decorativas que cria a partir das árvores de sua infância. A coleção tem como estrela um desenho com várias árvores, uma ao lado da outra, como mandacarus e coqueiros, todas bordadas à mão.
“Camadas”, a mais nova coleção, tem uma pegada autobiográfica. Joana teve como ponto de partida os trabalhos de formação do seu curso em arte terapia. “As camadas são fios que tecem memórias e histórias pessoais, na busca por novas construções de narrativas pessoais” As peças têm bordado labirinto de Beberibe, renda filé de Jaguaribe e estamparia natural.
Em paralelo, Jô atua na Ceart (Central de Artesanato do Governo do Estado do Ceará) como designer de produto. Ela viaja o Estado mapeando e trabalhando lado a lado de artesãos. “Na Ceart minha missão é desenvolver o vestuário de forma mais sofisticada, enaltecendo as tipologias de cada local.” E isso Joana faz como ninguém!