Pontos políticos
Pontos políticos
É impossível não se emocionar ouvindo Elza Soares cantar que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Também é difícil não ser arrebatado pelo manifesto – talvez mais tímido, mas não menos potente – presente nas obras de Gabriel Archanjo Neto, piauiense que usa a arte para refletir sobre desigualdades sociais e o sofrimento do povo negro.
Nascido e criado no bairro do Mafuá bairro em Teresina (onde vive até hoje) – conhecido por seu mercado público e por ser polo gastronômico –, Gabriel tem 63 anos e é filho de pai sapateiro e mãe professora. O casal teve 7 filhos, sendo ele o mais velho, e Gabriel diz que carrega muito dos dois: aprendeu a fabricar sapatos, e foi a mãe que ensinou todos os filhos a ler.
Também aprendeu os ofícios de ferreiro e serralheiro, mas sempre foi apaixonado mesmo pelo desenho, incentivado por um tio que morava em SP e sempre levava papéis e tintas quando ia visitar a família no Piauí.
O despertar político de Gabriel veio nos anos 80, quando começou a trabalhar como monitor de esportes em um centro de atendimento ao menor. “Ali entendi que existiam abismos sociais gigantes.”
Já o desabrochar artístico ocorreu quando foi trabalhar em uma agência de publicidade – mas a parte comercial não era seu forte.
“Eu nunca me senti artista. Estava ali pegando um caorna: era um passageiro dentro de um trem”.
Ainda nos anos 80, participou do “A Cara Alegre do Piauí”, projeto em que viajou o estado com professores e artistas. “Nós ministrávamos oficinas de arte e literatura em escolas públicas. Foi esse projeto que me permitiu conhecer o Piauí e suas diferentes realidades.”
Essas vivências desabrocharam numa arte bastante política – “eu pinto o desajuste”. Múltiplo, vai da aquarela ao pontilhismo. Em 2023, fez uma série de lenços com rostos de mulheres negras para o filme de Douglas Machado “A Carta de Esperança Garcia”, mulher negra escravizada que em 1770 denunciou maus-tratos e é considerada a primeira advogada do Brasil.
Representado pela Lima Galeria, Gabriel agora prepara uma série com a caprinocultura como protagonista. “O bode tem uma importância muito grande no Nordeste, especialmente no Piauí. É um símbolo de resistência” – assim como o próprio artista.