O Nordeste no imaginário da moda nacional quase sempre nasce do mar: vem de um litoral solar, tropical e palatável ao olhar estrangeiro. Mas há outro Nordeste, menos óbvio, que se sustenta em serras, roças e noites frias. É nesse território, onde o real se mistura ao sobrenatural, que a EGHO Studios finca suas raízes.

Fundada em 2021 por Romério Castro, baiano de Morro do Chapéu, e Gabriel Amaro, sócio e amigo paulista, a marca evoca no próprio nome a palavra mais repetida nas artes: “ego”.

Romério cresceu entre cachoeiras e grutas da Chapada Diamantina. Em sua memória estão lendas de árvores guardadas por bichos noturnos, relatos de óvnis no quintal do vizinho e a crença de que cada pedra ou tronco carrega uma história. O sertão, para ele, nunca foi só seca ou festa junina, mas um lugar onde o invisível se impõe. Esse repertório se traduz na EGHO como estética de mistério, resistência e brutalidade poética, um contraponto ao clichê solar do Nordeste litorâneo.

“Quase todas do Sudeste quando resolvem homenagear o Nordeste falam de Caetano, Maria Bethânia, do litoral, numa similaridade estética e de discurso. Eu vim de um Nordeste diferente, do interior, montanhoso, da roça. Cresci com São João e São Pedro. Sou do sertão, mas também do frio. Gosto mais das profecias de Raul do que das lamentações de Caetano”, provoca Romério.

Hoje a EGHO mescla referências do surrealismo e do dadaísmo ao uso experimental da Inteligência Artificial. Para Romério, esta década será marcada por imagens criadas por IA, sem que isso substitua o pensamento crítico ou a direção artística.

Em julho passado, a marca inaugurou sua primeira pop-up em São Paulo, em Pinheiros, que ficou até o fim do mês de agosto, concebida com materiais reciclados, ferragens de demolição e natureza morta, como se cada canto fosse uma ruína reaproveitada.

O espaço materializava o lema: “Stay Wild – You never meant to fit in.” Não por acaso, Romério carrega na linhagem a memória de Luiz Pedro, braço direito de Lampião, morto ao lado do líder do cangaço. Uma genealogia de insubmissão que ecoa em Glauber Rocha e na sua tradução do Brasil profundo. É desse Brasil, feito de fé e assombro, que a EGHO fala.