Sabores da diáspora
Sabores da diáspora
“A cozinha foi pra mim um grande útero de possibilidades.” É assim que Tayna Passos resume o início de sua trajetória na gastronomia, que culminou com a abertura em 2019 do restaurante Ilê Dùn, que serve comida afro-diaspórica em um casarão antigo no Barro, bairro na periferia do Recife.
Tayná tem 31 anos e aprendeu a cozinhar com a mãe, Maria da Conceição, a Dona Ceça, que como milhares de mulheres negras Brasil afora trabalhou boa parte da vida como empregada doméstica. Se na casa dos outros a comida era trabalho, na dela comida era falta – e foi justamente para superar este trauma que a hoje chef abraçou a culinária.
O milho teve um papel importante na história de Tayná, que começou fazendo pamonha, canjica e bolo de milho para vender na vizinhança. A empreitada deu certo. “Sempre elogiavam minha comida e sugeriam que eu deveria abrir um restaurante.”
Apesar de não ter formação na área, a pernambucana queria – e precisava – de mais. Começou, então, a pesquisar cursos e a história dos ingredientes na internet. “Percebi que faltavam aulas voltadas para as culinárias africanas e indígenas, por isso decidi seguir pesquisando e evoluindo por conta própria.”
Outro marco em sua trajetória foi a entrada para o candomblé, que abriu um novo leque de aprendizados, tanto de ingredientes quanto receitas. “Passei a trabalhar com alimentos que a cozinha branca tem preconceito. No candomblé, por exemplo, a gente diz que quem come quiabo não pega feitiço”, diverte-se.
Em 2025, Tayná mudou o Ilê Dún para um casarão no bairro Barro, perfeito para acomodar seu sonho, e onde está até hoje. Além de restaurante, há um espaço para eventos, rodas de conversa e cursos de capacitação. Por lá também acontecem roda de samba, celebrações para orixás e feiras com marcas de outros empreendedores negros.
“Ilê” significa casa em yorubá e “dún” remete a algo doce e acolhedor. A escolha do nome é perfeita para um restaurante que se propõe justamente a desmistificar a cozinha afro-diaspórica. No cardápio, os pratos usam ingredientes típicos como o dendê e o quiabo, mas também o milho e a mandioca, muito usados pelos indígenas – que são, no fim das contas, os sabores do Brasil.
De entrada, o menu traz clássicos como acarajé e os caldinhos de camarão e de feijão preto. Para prato principal, vale provar o Afro Arroz Com Vegetais, um arroz com banana, quiabo e pimentões, tudo banhado no dendê. Outra dica é a Amendoada Afro Indígena, uma feijoada feita com amendoins cozidos.
As sobremesas são um show à parte! Tem o Bolo Afro-Descendente, uma releitura do bolo nega maluca; brigadeiro de dendê; e o “Tayná”, uma mousse de cupuaçu com ganache de chocolate e farofa de castanha do Pará.