Para a ceramista pernambucana Jane Lima, o Carnaval não termina quando a Quarta-Feira de Cinzas chega. A folia permanece o ano inteiro através dos personagens que movimentam seu ateliê de cerâmica no bairro do Santo Antônio, no Centro Histórico em Recife.

Em suas mãos, ícones da cultura popular pernambucana como O Homem-da-Meia-Noite, o Caboclo de Lança e o Galo da Madrugada ganham vida o ano todo, em forma de peças de cerâmica que reinterpretam esses personagens de forma contemporâneo, por vezes com um toque cubista – preste atenção em seu Galo da Madrugada.

Até os famigerados tubarões que apavoram banhistas nas praias de Boa Viagem e Piedade, graças ao humor sarcástico de jane, se transformam em simpáticas petisqueiras ou em adornos de parede.

Jane teve bons mestres nesta tarefa de traduzi a cultura popular em obras de desejo universal – no curso de Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco foi aluna de Ariano Suassuna (1927-2014) e Francisco Brennand (1927-2019).  Antes de se tornar ceramista, trabalhou no Mamam (Museu de Arte Moderna Aloisio de Magalhães) e colaborou com o Instituto Ricardo Brennand, o que contribui para que formasse uma visão abrangente da cena, desafios e possibilidades das artes pernambucanas.

Em 2005, precisou deixou o Recife e passou anos distante da cidade. O retorno só aconteceu em 2019, quando reencontrou a capital e iniciou ao mesmo tempo um processo de reaproximação com as artes visuais e de experimentação para achar seu caminho na área.

Artista inquieta, mergulhou nas técnicas e matérias-primas produzidas em Pernambuco e encontrou na cerâmica sua forma de expressão. Mais do que reproduzir o Carnaval, Jane o desmonta e reconstrói em outra escala, transformando uma festa de duração limitada em objetos que podem permanecer à vista durante todo o ano.