Caatinga onírica
Caatinga onírica
Você pode nunca ter ido ao sertão de Sergipe, mas conhecer o trabalho do Véio é como adentrar o universo onírico da caatinga, com seus seres fantásticos – meio homens, meio bichos –, onde coabitam lendas e pessoas reais.
Um dos artistas populares mais relevantes do Brasil, Cícero Alves dos Santos ficou conhecido por suas esculturas de madeira, de diferentes dimensões, todas feitas com troncos e galhos recolhidos nas matas secas de Nossa Senhora da Glória, cidade do sertão sergipano a 126 km de Aracaju.
Aos 79 anos, com seis décadas de intensa produção artística – um levantamento recente catalogou 650 obras entre coleções públicas e privadas – Véio tem peças no acervo da FondationCartier, já participou na Bienal de Veneza em 2015 com uma mostra só sua e expôs em Londres e Paris.
Agora ganha a maior retrospectiva de sua carreira, com mais de 300 peças, em cartaz no Museu do Pontal, no Rio de Janeiro, até março de 2027.
Cícero Alves dos Santos, ganhou o apelido de Véio porque na infância tinha paixão por ouvir causos contados pelas pessoas idosas da região. Preferia ouvir as histórias de caiporas, do lobisomem, do fogo corredor contadas pelos velhos sertanejos a brincar com outras crianças.
Iniciou a trajetória como artista esculpindo com cera de abelha nos intervalos do trabalho na roça. Tudo mudou quando encontrou a madeira, que virou não só matéria-prima do seu trabalho, mas uma espécie de bússola. Véio costuma criar a partir das formas naturais de troncos e galhos, respeitando os veios e o caminho que a própria madeira indica. “Dou vida ao que já está morto”.
Ainda que boa parte de seu trabalho seja mais abstrata, é possível identificar cenas domésticas, com mães e filhos, o trabalho do homem do campo, a solidão impotente dos índios. Com criatividade, expõe feridas sem nunca perder a poesia e a capacidade de imaginar novas realidades.
Muitas dessas esculturas habitam o Museu do Sertão, instalado em um sítio em Feira Nova, município vizinho à terra natal de Véio. Criado por ele, que sempre sentiu que faltava valorização dos artistas sergipanos, o espaço reúne um acervo de 17 mil obras que recontam os modos de vida e produção do sertanejo.