Design indígena
Design indígena
Feitas com madeira e fibra de caroá extraídas no Quilombo Jatobazinho, no Piauí, a série de três cadeiras assinadas pelo Uta Studio deram o que falar na PAD Design Paris, uma das mais importantes feiras de arte e design da Europa.
Seu autor, Breno Caetano, é um legítimo nômade: hoje vivendo na Bélgica, nasceu na região amazônica, em território yanomami, mas foi morar em Fortaleza aos 6 anos, onde permaneceu até os 19. De lá seguiu para a França, para estudar dança na Centre National des Arts du Cirque, e chegou a trabalhar com profissionais renomados, como Ohad Naharin e Philippe Decouflé.
Em 2016, partiu para uma residência artística no Japão, onde começou a cursar disciplinas fora da grade curricular da dança e conheceu a Sashimono, técnica que cria objetos de madeira apenas com encaixe, sem cola nem prego.
Foi na pandemia que os dons manuais desabrocharam e tomaram o protagonismo na vida de Breno. De volta à Europa, instalou-se em Bruxelas e começou a criar pequenos objetos decorativos, como tábuas, bancos, candelabros e esculturas. Daí para os móveis de maior porte foi um pulo.
Seu mobiliário tem design orgânico, no melhor estilo “o padrão é não ter padrão”. “Minha ideia de design parte da imagem. Vejo meus objetos como peças que dançam, como eu dançava.”
Para entender o DNA do UTA, vale conferir “Urushicum”, série de pratos e bowls com garras inspiradas nos espinhos dos cactos. O nome é uma brincadeira entre urushi, técnica japonesa que usa a seiva da árvore para criar revestimentos de brilho profundo, com urucum, corante natural muito usado em comunidades indígenas.
A série de cadeiras apresentadas na PAD Design tiveram o trançado desenvolvido no Quilombo do Jatobazinho, em Dom Inocêncio (PI). A técnica têxtil desenvolvida pelas artesãs quilombolas usa a fibra de caroá, nativa da caatinga, que até então servia exclusivamente para a confecção de redes.
O artista tem ainda outra peça que faz referência à herança nordestina: é o Lençois Cabinet, armário com uma textura esculpida que remete à padronagem da areia nos Lençóis Maranhenses.
Breno passou dias no quilombo, acompanhando o processo de confecção. “Enquanto yanomami e nordestino, tento transformar técnicas de forma respeitosa, encontrando a minha estética dentro desses saberes ancestrais.” O resultado são peças que usam referências locais de forma abstrata, elegante e zero literais.