Favela venceu
Favela venceu
O funk brasileiro invadiu a França, mas não foi só através dos beats. Ele é o tema de “Baile funk: um cri de liberte”, exposição que reúne fotos, colagens e pinturas sobre o movimento. Após fazer sucesso no Museu de Arte do Rio em 2023, ela cruzou o Atlântico e chegou a Lill, onde fica em cartaz na Maison Folie Wazemmes até 21 de setembro.
Um cearense de apenas 24 anos está entre os artistas selecionados para a mostra, com três obras da série “Festa de Preto”, na qual retrata pessoas negras se divertindo. Nascido e criado no conjunto habitacional Riacho Doce, na periferia de Fortaleza, Helder Carlos, o Blecaute, se equilibra entre imagem e teoria: além de artista, é estudante de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará.
E foi justamente a procura por seu “eu” dentro da sociedade que o aproximou das artes. “Entendi que podia usar as artes para falar de filosofia com mais proximidade, já que acaba sendo uma ciência abstrata e afastada da minha realidade.”
O codinome escolhido por Helder tem dois significados. O primeiro é porque, como tem astigmatismo, prefere trabalhar sempre com luz reduzida. “Além disso, o nome tem uma perspectiva mais filosófica de ‘causar um apagão’ em um sistema que é majoritariamente branco.”
Blecaute começou a desenhar em 2019 – como não tinha grana, fazia no celular mesmo ilustrações de cantores, cenas de filme, sempre com protagonistas negros. Depois passou para o tablet, até finalmente experimentar a tinta a óleo.
Em 2020, chamou atenção do MASP com a obra “A partir do meu sangue… arte”, um autorretrato dele enquanto Cristo, com um pincel na mão. E não parou mais.
Com uma arte que é popular em sua essência, Blecaute assinou um projeto com a marca Kenner, já que volta e meia seus personagens apareciam nos quadros com a sandália, que faz muito sucesso nas periferias. Também assinou a capa de um single do rapper Xamã com O Kanalha e Maquinho no Beat (primeira arte ao lado).
No melhor estilo “favela venceu”, Blecaute é exemplo para uma legião de meninos pretos que querem ser artistas. “A arte me deu a oportunidade de sonhar. Até a exposição ‘Baile Funk’, nunca imaginei que viajaria para fora do país.”