Memória periférica
Memória periférica
“Aprendi a desenhar antes de andar”: é assim que o recifense Ricardo Gabriel, mais conhecido como Afro’G, fala sobre sua relação com a arte e sobre o dom que virou profissão. Criador do “afromodernismo”, um estilo próprio que bebe do afrofuturismo sem perder a base da sua cultura negra periférica, Afro’G acaba de inaugurar sua primeira exposição individual em Recife, “Nostalgia: Memória e Infância Negra”, que fica em cartaz no prestigioso museu Cais do Sertão até 23 de setembro.
Artista plástico e grafiteiro autodidata da Favela do Detran, no bairro de Iputinga, Afro’G é um dos artistas que tem ressignificado a arte no Recife, mostrando um lado pop, urbano e negro. Em suas telas e murais, encontramos personagens da periferia em cenas do cotidiano, mas sempre em poses e com adereços que falam sobre identidade e autoestima – pense em códigos marcadores de estilo como as tranças, os óculos lupa e a camiseta do Sport Club do Recife.
Filho e neto de catadores, Afro’G começou criando com o que a mãe e avó achavam no lixo. “Elas traziam quadrinhos de Ziraldo e Maurício de Souza para casa, além de lápis, papel e papelão. Eu tentava reproduzir esses desenhos – e assim fui até começar a criar do zero.”
Por falta de dinheiro, Afro’G não conseguiu fazer cursos técnicos na área, mas teve a trajetória atravessada por projetos sociais que abriram sua cabeça e facilitaram o acesso a materiais. “Também foi muito importante conhecer outros artistas urbanos, que me enriqueceram com suas referências.”
Afro’G usa em suas obras colagens de embalagens e objetos que caíram em desuso, como celulares antigos. As obras resgatam cenas do cotidiano de muitos meninos e meninas de periferias, como o banho de bacia, as brincadeiras com pião, as pipas no céu e as tardes em fliperamas.
Ainda que seja sua primeira individual em Recife, Afro’G já teve uma mostra menor em SP, além de ter participado de coletivas e assinado painéis pelo mundo. Também fez collabs com marcas de moda e até com o funkeiro paulista MC Hariel. “Acredito que a geografia, o lugar de onde vim, não são impeditivos: o que conta é minha vontade de viver de arte.”
Que as portas sigam se abrindo!